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domingo, 7 de julho de 2013

Biojoias renovam o estilo com sofisticação

Peças trazem de volta o ar de moda sustentável e reafirmam a tendência de acessórios.





Rizemberg Felipe
Biojoias são feitas com ossos e coloridas com corante 100% natural
Ao mesmo tempo regionais e elegantes, as biojoias feitas com ossos vêm despontando como grandes aliadas para criar looks originais. Colares, brincos, anéis e pulseiras: o emprego das peças também tem se mostrado eficaz na hora de montar visuais antenados com as últimas tendências, que cada vez mais incorporam elementos artesanais e étnicos.

Maria Josilene Bernardo de Souto, mais conhecida como 'Jô do Osso', trabalha com a matéria-prima há mais de 30 anos e afirma com segurança que as biojoias produzidas com ossos estão conquistando mulheres de diferentes partes do Brasil e do mundo.
 
“Eu tenho clientes não só daqui, mas de vários países que me visitam e se interessam bastante pelo produto”, conta.
 
E esse interesse não fica restrito às ruas. Segundo ela, até produtores de novela já pediram autorização para que as peças fossem usadas na ficção. “Quando me ligaram, pensei que fosse brincadeira. Disseram que minhas peças eram únicas e queriam autorização para usar na novela. Hoje, alguns colares e brincos da personagem de Paola Oliveira em 'Amor à Vida' são criações minhas”, menciona.
 
Conforme o estilista Romero Sousa, as peças têm a vantagem de se adaptarem aos mais variados estilos e ocasiões. “As biojoias em osso têm como característica serem impactantes, ou seja, por si só chamam atenção. Então, elas se enquadram tanto em looks mais despojados quanto nos mais elaborados”, observa. Ele ainda complementa: “dentro das tipologias do artesanato do nosso estado, elas são únicas, tem um apelo muito sofisticado e uma dedicação ímpar”.
 
Além de romper um pouco da sobriedade de algumas composições, as biojoias feitas com ossos também são uma excelente opção para sair do lugar comum. Isso é o que garante a jornalista de moda e blogueira Fernanda Alves. Para ela, uma boa alternativa é combinar a formalidade de looks casuais com a heterogeneidade das peças.
 
“Para quem quer começar aos poucos, eu recomendo tentar combinar com roupas lisas e de corte clássico, como uma boa camisa social branca, calça jeans e camiseta. Quem quiser ir além, pode combinar um colar ou brinco, que ficarão na parte superior do corpo, com algum sapato de cor forte ou mesmo estampado. Não vai chamar tanto a atenção justamente por estarem em extremos do corpo”, explica.
 
A jornalista completa: “para quem já se sente segura, recomendo usar dois braceletes iguais, um em cada braço, com um vestido estampado. Já as mais ousadas podem tentar um macacão ou combinação de peças com a mesma estampa - calça e blusa -, que está super na moda”.
 
ACESSÓRIOS DÃO UM TOQUE ÉTNICO AO LOOK
Designs inspirados em tribos indígenas e africanas têm adquirido bastante relevância em coleções recentes de grandes estilistas. Por conta disso é que o uso de elementos étnicos vem gradativamente ganhando mais espaço no guarda-roupa, além de ter conquistado a estima de fashionistas e consultores de estilo. Fernanda Alves considera positiva essa influência.
 
“Eu acho legal a tendência étnica justamente por jogar luz em novos materiais, feitos por artesãos independentes de várias partes do mundo. Conseguir compor um look em que cada peça é de um lugar faz dele único, e isso é moda”, exalta. Ela acrescenta: “acho que o étnico vai além das estampas, que são a forma mais popular de seguir a moda, chegando aos materiais e técnicas diferentes e únicas”.
 
Segundo Fernanda, as biojoias de osso criam oportunidades de combinações interessantes com os looks étnicos, compondo visuais mais arrojados. “As peças ficam bacanas em roupas com estampas do tipo e em cortes alternativos, tipo saias assimétricas e vestidos com decotes diferentes”, indica.
 
Sobre a utilização do osso como matéria-prima e o cenário fashion atual, a professora e historiadora de moda Mayrinne Meira faz questão de enaltecer e reconhecer o efeitos significativos de tais criações. “A moda brinca com a linha do tempo de uma forma criativa, lúdica. Ela nos mostra que tudo é atemporal e perecível no seu universo. Tudo tem oportunidades de retorno. Esse material foi exaustivamente utilizado como utensilio doméstico, mas também como adorno, o que mostra preocupações funcionais e também deleite estético”.
 
PEÇAS DE OSSO FAZEM PARTE DA MODA ECOCHIC
As biojoias de osso surgem também como elementos da chamada moda sustentável – ou do movimento ecochic. Para Mayrinne, peças como essas dão um fôlego a mais ao meio fashion paraibano. “Esse trabalho, além de ser belíssimo e ter um apelo comercial considerável, pode levar o nome do nosso estado aos altos patamares da mídia, como aconteceu com o macramê e algodão colorido”, exemplifica.
 
O consultor de estilo e produtor de moda Thiago Roese também exalta produções do tipo. “Isso mostra como se pode ser criativo utilizando e reciclando objetos. É um grande estímulo para outras pessoas que trabalham com criações de roupas, joias e artes", acredita.
 
Compartilhando da mesma ideia, o estilista Romero Sousa ainda ratifica os benefícios para a cultura local. “Eu, como estilista, sempre estou pesquisando novas possibilidades de trabalhar com o artesanato de apelo regional e acho importante a valorização da cultura para preservar as nossas memórias”, ressalta.
 
“Já fiz uma coleção inspirada no cangaço, onde associei essas peças com prata e bordados, e outra inspirada na Pedra de Ingá, onde as simbologias foram transpostas para o osso. Recentemente, desenvolvi também uma coleção de sandálias onde uni seda, couro de tilápia e osso”, finaliza. (Especial para o JP)


sábado, 16 de fevereiro de 2013

Pedra do Ingá, na Paraíba, guarda enigmas sobre os primeiros habitantes do Brasil

14/02/2013 - 07h55 
 
Elaine Kawabe
 

Do UOL, em Ingá, na Paraíba
No oeste da Paraíba, a 46 km de Campina Grande e a 109 km de João Pessoa, localiza-se o primeiro monumento arqueológico tombado como patrimônio nacional em 1944: a pedra do Ingá. Identificado pelos arqueólogos como “itaquatiara”, o que em tupi-guarani significa “pedra pintada”, o bloco rochoso possui desenhos esculpidos em baixo-relevo que aguçam o imaginário dos místicos e despertam a curiosidade até dos mais céticos.



A maior parte da rocha tem sulcos redondos. À esquerda,
pintura cujo formato lembra um foguete. Elaine Kawabe/UOL

A pedra, situada no município de Ingá, à margem do riacho Bacamarte, mede 24m de comprimento e 3,8m de altura. Os símbolos, sulcados e esculpidos com apurada técnica na enorme pedra, lembram figuras humanas e animais; linhas onduladas remetem ao movimento das águas; há contornos curvilíneos, círculos pendulares e formatos cônicos que, "forçando" a imaginação, assemelham-se a foguetes. Mas tudo é especulação. Quem desmistifica essas impressões é Vanderley de Brito, presidente da Sociedade Paraibana de Arqueologia.

Segundo o historiador e arqueólogo, as inscrições pertenceram a uma cultura extinta entre 2.000 e 5.000 anos atrás. Não se sabe a data certa das inscrições, pois a pedra está numa área fluvial onde não há vestígios orgânicos nem utensílios cerâmicos, objetos ou tecidos com desenhos semelhantes àqueles encontrados na rocha. “O mais provável é que o painel rupestre guarde em seu baixo-relevo um comunicado bem mais simples do que se imagina. Talvez tenha sido feito para perpetuar alguma tradição do clã e seus heróis do passado”, declara.

Além disso, certas ações realizadas há menos de um século dificultam, hoje em dia, a descoberta de mais informações acerca das intrigantes inscrições rupestres. Na década de 1950, algumas pedras com desenhos esculpidos, próximas da rocha principal, foram destruídas para se transformar em paralelepípedos destinados à pavimentação das ruas da capital paraibana. A área total do complexo arqueológico, na época de seu tombamento, era de 1.200m²; hoje, é de apenas 1000m². Por fim, o clima também tem sua parcela de culpa. A pedra fica exposta ao sol, ao frio, à chuva e às cheias do riacho. Tudo isso desgasta a camada superficial da rocha, apagando lentamente a história dos primeiros habitantes do Brasil.

Museu de história natural
No complexo da pedra do Ingá há um pequeno museu de história natural, criado em 1996, que possui em seu acervo fósseis de animais extintos há mais de 10 mil anos. Alguns desses fósseis – animais da fauna pleistocênica da região de Ingá e instrumentos de pedra polida - foram descobertos pela própria fundadora do museu, a historiadora e paleontóloga Mali Trevas. Há também peças vindas do litoral paraibano, como o esqueleto de baleia e o gastrópode (molusco) fossilizado, ambos de origem triássica (entre 251 e 199 milhões de anos atrás).

Como chegar
De carro – Vindo de Campina Grande pela BR 230. Na altura do quilômetro 118, entre na estrada estadual PB 095, depois siga as placas por mais 5km até chegar ao sítio arqueológico.

De ônibus – Da rodoviária de Campina Grande, a empresa Auto Viação Progresso parte diariamente para Ingá. Saídas: das 6h30 até 17 h. O ônibus para na entrada da cidade, a 5km de distância do sítio arqueológico. Dá para ir a pé ou pegar moto-táxi. Mais informações: www.autoviacaoprogresso.com.br

Saindo de João Pessoa, a empresa Real Bus sai da rodoviária diariamente e pára em Ingá.  Saída: das 5h às 21h. Mais informações: www.realbus.com.br

Sítio Arqueológico Itaquatiara (Pedra do Ingá)
Funcionamento: diariamente, das 8h às 16h. Entrada gratuita.

Sites:
Prefeitura de Ingá
www.inga.pb.gov.br
Guia turístico
www.pedradoinga.blogspot.com

Onde ficar:
As opções de hospedagens estão em Campina Grande, que fica a 46 km.




A Pedra de Ingá mede 24 m de comprimento e 3,8m de altura.
Elaine Kawabe/UOL
 



Na época de cheia do Riacho Bacamarte, as águas cobrem quase a toda a rocha.
Elaine Kawabe/UOL
 


Visão lateral da Pedra de Ingá, na Paraíba. Elaine Kawabe/UOL


Arqueólogos acreditam que uma cultura extinta entre 2.000 e 5.000 anos
atrás desenhou as inscrições rupestres enigmáticas na Pedra de Ingá.
Elaine Kawabe/UOL


No sítio arqueológico da Pedra de Ingá, o pequeno museu de história natural
reúne fósseis de animais de mais de 10 mil anos atrás. Elaine Kawabe/UOL


Partes do calcanhar de uma preguiça-gigante. Cada peça tem o tamanho
aproximado de uma bola de futebol. Elaine Kawabe/UOL



O fêmur da preguiça-gigante mede 80 cm e foi achado em terras próximas
a Pedra de Ingá. Elaine Kawabe/UOL


Instrumentos de pedra polida foram encontrados no sítio arqueológico da
Pedra de Ingá. Acredita-se que pertenceram a povos em estágio agrícola,
entre 4.000 e 1.000 anos atrás. Elaine Kawabe/UOL

 
Gastrópode (molusco) fossilizado do período triássico (entre 251 e 199 milhões
de anos atrás). O fóssil foi encontrado em João Pessoa (PB) e está em exposição no
pequeno museu de história natural da Pedra de Ingá. Elaine Kawabe/UOL

 

Reprodução de uma parte dos desenhos sulcados na rocha.
Elaine Kawabe/UOL


Pintura exposta no museu de História Natural da Pedra de Ingá.
Elaine Kawabe/UOL


domingo, 23 de setembro de 2012

Ingá: Campanha eleitoral em cidade paraibana com sítio arqueológico despreza potencial turístico

Candidatos ignoram registros de 6.000 anos de idade em pedra

Carlos Madeiro, Fabrício Venâncio, Leandro Moraes e Noelle Marques
Do UOL, em Ingá (PB)


Ingá é um município que fica entre as duas principais cidades da Paraíba: João Pessoa e Campina Grande. O local tem fama internacional por conta das itacoatiaras (técnica de gravura em rocha). Na cidade, três candidatos disputam a prefeitura, mas nenhum deles tem propostas para a Pedra do Ingá.


A cidade de Ingá (a 105 km de João Pessoa), encravada no agreste paraibano, guarda um dos mais importantes achados arqueológicos do país. A Pedra do Ingá tem registros dos paleoíndios (primeiros seres humanos a povoar o Brasil) de aproximadamente 6.000 anos atrás, que fizeram gravuras em rochas e tornaram a cidade referência internacional quando o assunto são as itacoatiaras --as de Ingá são consideradas as mais expressivas do mundo.

O UOL visitou a cidade dentro do projeto UOL pelo Brasil --série de reportagens que percorre municípios em todos os Estados do Brasil durante a campanha eleitoral deste ano-- e viu que a cidade é mais um exemplo típico de potencial turístico pouco explorado.

Tombado pelo patrimônio histórico em 1944, o parque da Pedra do Ingá tem infraestrutura precária e acesso difícil. No local não existe um museu, a única lanchonete vive fechada e as visitações só são feitas com marcação de um guia, que leva o turista ao encontro da pedra, às margens do Rio Ingá.

Candidatos não têm propostas para desenvolver turismo 
Em Ingá há três candidatos a prefeito disputando as eleições municipais de 2012, entre eles o prefeito Luiz Carlos Silva, o Lula (PMDB). Na cidade, três cores dominam as ruas: o azul, o vermelho e o amarelo. Apesar da disputa acirrada, nenhum político usa o potencial turístico como plataforma de governo, e a Pedra do Ingá é assunto esquecido.

No plano de governo de Biurity (PP), por exemplo, há apenas a citação da pedra, em meio a um projeto que cita preservação e recuperação de mananciais dos rios. Já os candidatos Lula e Manoel Batista Chaves Filho, Manoel da Lenha (PSD), não fazem nenhuma referência sequer ao assunto.

A pedra do Ingá não é lembrada porque não traz voto.

Dennis Mota, guia turístico



“Nas eleições a Pedra do Ingá não é lembrada porque é uma coisa que não traz voto. Quem visita é o estrangeiro, é o pessoal de outros estados. Como o pessoal da cidade não se interessa, nas eleições a pedra não é lembrada”, conta o historiador e guia de turismo oficial do parque, Dennis Mota.


O casal Renato e Cecília Alves da Silva trabalha no parque há 24 anos e reclama da prefeitura, que teria tirado deles a chave do parque, o que passou a dificultar o acesso de turistas. “Nós sempre ficamos ali cuidando de tudo, pagava até a energia. Hoje, o parque recebe pouca gente. Acabou a visitação porque não se divulga mais, não se faz melhoria, nada. Hoje, no máximo, tiramos R$ 300 por mês de lá”, disse Renato.

A chave do parque passou para as mãos da prefeitura após acordo com o Ministério Público.

População reclama de esquecimento dos políticos

Para a população, não há dúvidas de que a fama das pedras poderia ser usada para melhorar a vida dos moradores. Eles reclamam dos políticos que não fazem propostas. Todos os moradores ouvidos pelo UOL na cidade disseram que não existem investimentos para tornar a cidade um ponto turístico.

Leandro Moraes/UOL
Homens observam comício político em Ingá, na Paraíba.


“É um lugar muito bonito, mas pouco preservado pela parte política, que não desenvolve um projeto de melhoria. Aos poucos, o parque vai se deteriorando”, conta a dona de casa Lilian do Nascimento Santos.

Para o professor José Honório da Silva, o assunto não tem a importância que merece dos candidatos. “Não percebemos nenhuma vontade política. Estamos num momento político, e não vemos nenhum candidato a prefeito ou vereador tocar no assunto. É triste para a gente. Sousa [onde está o parque dos Dinossauros] é a única cidade turística fora de João Pessoa”, diz.

O desprezo também é percebido por outros moradores. "Até aqui não vi nenhum candidato fazer promessa. É nosso ponto turístico, mas, infelizmente, está abandonado. Os políticos vão lá, mas não fazem tudo que é preciso. Ali precisa de uma coisa que chame a atenção. Era para ter um hotel, um restaurante. A gente mesmo daqui não admira nada”, afirma o aposentado José Celestino.

Segundo Celestino, a cidade também sofre com a falta de políticas públicas para os jovens. “Precisa cuidar dessa juventude. Hoje não temos uma faculdade para formar eles”, diz.

Sem estrutura, Ingá vira roteiro rápido

Apesar de ser cidade turística, Ingá não possui hotéis ou bons restaurantes. Parte disso pode ser explicado pela proximidade com Campina Grande (38 km), cidade-polo do agreste paraibano.

A falta de estrutura faz com que Ingá seja apenas um roteiro rápido. "A verdade é que a cidade não se movimenta com o parque. Antes, as festas de São João aconteciam aqui e aí, sim, gerava dinheiro. Hoje não se investe no turismo, não temos boas pousadas, bons restaurantes. É um ponto de visitação, mas só de passagem”, afirma o guia de turismo Dennis Motta, que é funcionário da prefeitura.

Segundo ele, a prefeitura tem interesse em fazer melhorias, com um projeto pronto, mas o terreno onde está o parque foi desapropriado apenas no papel, sem a conclusão da compra. O local ainda possui três donos, o que impede a execução das obras de melhorias.


Fonte