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Pesquisa da UFPB constata que água e solo estão fora do padrão. Outros fatores também contribuem para degradação.
JAINE ALVES
Lixão não é o único agente poluidor, esgoto e óleo descartados pela
população que mora no entorno também, polui água subterrânea a na
superfície. Fotos: Francisco França
O antigo 'lixão' do Róger, em João Pessoa, desativado há mais de 10 anos, continua causando prejuízos ambientais para o solo e a água do Rio Sanhauá na região, mas ligações clandestinas, pequenas embarcações e estabelecimentos comerciais também contribuem para a degradação do afluente. É o que aponta uma pesquisa do Departamento de Engenharia Ambiental, da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), coordenada pela professora Cláudia Nóbrega, que por meio da coleta de amostras verificou que a água e o sedimento do rio estão fora do padrão de classificação estabelecido pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama).
De acordo com a professora, o objetivo da pesquisa é avaliar se há contaminação e poluição das águas superficiais e subterrâneas, além do sedimento no entorno da área do antigo lixão, onde são feitas análises físicas, químicas e microbiológicas para avaliar o grau de degradação. “Fazemos também a análise de metais pesados que também foram encontrados na água superficial do Rio Sanhauá, bem como o monitoramento do chorume lixiviado (processo de extração de uma substância presente em componentes sólidos através da sua dissolução num líquido) das células, o que mostra que praticamente não há concentração, mas ainda há degradação da matéria orgânica nessa área”, afirmou.
Cláudia Nóbrega destacou que o lixão não é o único agente poluidor, mas que outros poluentes também afetam as águas subterrâneas e superficiais, como a poluição de esgoto e óleo descartados pela população que reside ou trabalha no entorno. “A poluição da área não é exclusivamente provocada pelas atividades do antigo lixão, pois lá também já funcionou um curtume e há oficinas e postos de combustíveis no entorno. Com isso encontramos o parâmetro chamado de 'óleos e graxas', que provavelmente são oriundos desses estabelecimentos comerciais e também de pequenas embarcações, que também poluem”, disse. “Além disso, tem uma área de invasão, que despeja seus esgotos sanitários diretamente no rio. São uma série de fatores que contribuem para degradação do Sanhauá”, completou.
PADRÃO
Devido a esses poluentes, a pesquisadora disse que o rio está fora do padrão de classificação estabelecido pela resolução 358 do Conama, que classifica a água doce, salobra e salgada, cada uma delas com várias classificações. “O Sanhauá é da classe 3, mas a área recebe grande carga de poluente e por conta disso alguns parâmetros estão fora padrão. O órgão ambiental precisa agir para que o corpo aquático volte a ter as características do padrão em que foi enquadrado. A Sudema (Superintendência de Administração do Meio Ambiente) tem que agir junto aos demais órgãos para solucionar o problema, a exemplo do que foi feito nos rios Tâmisa e Sena, que foram despoluídos”, observou.
Os relatórios da pesquisa são enviados para a Autarquia Especial Municipal de Limpeza Urbana (Emlur), que encaminha para outros órgãos e que financia o projeto de pesquisa, auxiliando no monitoramento.
RECUPERAÇÃO
O estudo foi iniciado em março de 2006 e segundo Cláudia Nóbrega, desde então os resultados são praticamente os mesmos, o que sugere que os agentes poluidores continuam. “O rio não tem condições de se regenerar na mesma velocidade com que é poluído. Já encontramos metais pesados, como chumbo e alumínio, mas ao mesmo tempo encontramos crianças brincando em meio à poluição, pessoas usando o rio para lazer, pesca e venda de peixe, camarão e marisco. Isso pode causar doenças de pele e outras mais sérias devido ao consumo de alimentos e metais pesados, que com a ingestão constante do mercúrio, por exemplo, pode resultar em doenças neurológicas, e o alumínio contribuir para o Alzheimer, conforme apontam alguns estudos. O ideal seria retirar todos os poluidores e depois tratar a água”, sugeriu.
No entorno do antigo lixão do Róger é possível flagrar situações de desague de poluentes, como esgoto e lixo. Para os moradores da comunidade do 'S', localizada próximo ao lixão, o problema tem causado prejuízos à população, em especial crianças e idosos, que possuem a imunidade mais delicada, como contou a dona de casa Marluce da Silva, 48 anos. “Viver aqui é uma nojeira. Se a gente tivesse para onde ir já teria saído daqui. Além do chorume do lixão, o esgoto tem causado doenças em quem mora aqui, denunciou.
Cláudia Nóbrega lembrou que já há um projeto de recuperação do solo da área do antigo lixão, cujo tratamento evitará que o chorume produzido no local entre em contato com água, de modo que a incidência de poluição no lençol freático também diminuirá. “Os gases provenientes da decomposição dos resíduos depositados no Róger também serão colhidos por meio de um sistema de tubos, que também diminuirá a contaminação do ambiente”, disse.
TERCEIRA CÉLULA
Segundo a Emlur, as obras estão em andamento, e já está sendo construída a terceira célula de tratamento, que conta com drenos para coletar o chorume e os gases, além de tratá-los.
SUDEMA E SEMAM
A assessoria de comunicação da Sudema informou que o órgão não tem competência dentro de João Pessoa, devido à cidade ter um órgão ambiental municipal, de modo que a responsabilidade é da Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Semam).
No entanto, a Semam não realiza fiscalizações no entorno do afluente afim de evitar a poluição causada por moradores, pescadores e comerciantes, conforme informou o chefe de Fiscalizações, Waldir Diniz. “Só atuamos quando se trata de denúncias, pois, infelizmente, não trabalhamos com prevenção. Quem pode ter algum trabalho nesse sentido é a Sudema, já que o rio passa por várias regiões do Estado e porque ela realizada coletas para análises”, afirmou.
Antigo lixão
deveria ser transformado em parque ecológico, mas após uma década a
população ainda não foi beneficiada com o espaço.
Jaine Alves
Francisco FrançaMoradores cobram a execução do projeto, que dez anos após seu anúncio não foi executado
A recuperação da área do antigo 'Lixão do
Róger', em João Pessoa, que vai desde a remediação do solo, e que visa a
conter e evitar a contaminação com o líquido proveniente dos resíduos
sólidos (chorume) no espaço onde foram depositadas toneladas de lixo no
passado, até a transformação do local em um parque ecológico, ainda não
saiu do papel, há mais de 10 anos.
A Autarquia Especial Municipal de Limpeza Urbana (Emlur) reconhece a
estagnação do projeto e afirma que o mesmo precisa passar por
adaptações.
Moradores da comunidade do 'S', localizada no entorno do antigo
lixão, cobram a execução do projeto que aponta várias melhorias para a
população com a conclusão do mesmo, a exemplo da dona de casa Maria
Francisca, 40 anos, que reside com mais seis pessoas, sendo duas
crianças, logo na entrada da comunidade, próximo ao portão de entrada do
antigo lixão, há 21 anos.
“Faz tempo que ouço falar nesse parque, mas até agora não vimos nada.
Só a desativação do lixão. A construção desse parque iria resultar em
muitos benefícios para os moradores daqui. Um deles seria a diminuição
do uso de drogas aí dentro (do lixão) e também teríamos um local seguro
de diversão para as crianças”, declarou.
Outro morador que preferiu não se identificar disse que a única coisa
que vê sendo feita é o bloqueio de pessoas que às vezes querem entrar
no local para despejar resíduos sólidos. “Tem um pessoal fazendo essa
fiscalização, ninguém entra para jogar mais nada aí e isso é bom, mas
dizer que estão trabalhando para recuperar a área... Eu só acredito
quando ver esse tal parque pronto”, disse.
De acordo com o diretor operacional da Autarquia Especial Municipal
de Limpeza Urbana (Emlur), Mozart de Castro, a área do antigo lixão do
Róger foi divida em cinco células para facilitar a realização da
remediação do solo contaminado, das quais duas células já foram
finalizadas, uma está em fase de conclusão e outras duas ainda serão
iniciadas.
“De fato não foi feito muita coisa ainda, mas estamos inicialmente
concluindo essas remediações, para poder darmos continuidade às ações.
Depois de findada essa fase, iniciaremos a implantação do projeto, em
si, com a construção de estações ecológicas, museus e o que mais puder
ser agregado ao local”, reconheceu.
Nesse intervalo, Mozart de Castro ressaltou que o projeto está sendo
estudado pela equipe de engenharia para readaptá-lo. “O estudo inicial
foi feito em 2003 e de lá pra cá muita coisa mudou. Temos que rever e
adaptá-lo ao tempo. Por esse motivo ainda não temos previsão para o
início efetivo das obras. Estamos analisando, readaptaremos e, então,
iniciaremos os trabalhos de execução do parque”, frisou.
“Por enquanto, estamos dando continuidade à remediação da área e
controlando a entrada de resíduos, até que tenhamos uma definição mais
concreta do que será executado”, completou.
Danos ambientais. Para o vice-presidente da Associação Paraibana dos Amigos da Natureza (Apan), Antônio Augusto de Almeida, o retardo na conclusão
da remediação do solo acaba cometendo danos ambientais, uma vez que o
objetivo da remediação é fazer a contenção da área onde o lixo era
armazenado de forma incorreta, evitando que chorume contamine a área de
mangue do Rio Sanhauá e os lençóis freáticos.
“Entendemos que esse não é um problema de hoje, mas de anos,
entretanto, embora a prefeitura tenha uma secretaria de Meio Ambiente,
está deixando a desejar no que diz respeito às políticas públicas que
prezam pelo meio ambiente. Além disso, vem a questão social também, já
que aquelas famílias que vivem no entorno do antigo Lixão do Róger
precisam de atenção e de meios que possam inseri-las de forma digna na
sociedade”, pontuou.